Eles incitaram a revolta das palavras. Eles acordaram a sensibilidade poética. Eles cometeram diversos atentados contra a moral e os bons costumes.
E continuam livres. É, eles continuam livres. Apesar da cada vez maior e mais eficiente boçalidade reinante.
Gente feliz? Gente infeliz? Gente cruel? Gente gente? Quem são eles afinal?
Eles são nossos novos olhos, nossas novas bocas, nossos novos narizes, nossas novas mãos, nossos novos ouvidos. Eles são nossos novos sentidos, agora multiplicados e espalhados.
Para eles a literatura é uma coleção de agulhas. Curtas, coloridas, envenenadas, não importa: uma coleção de agulhas que devem ser enfiadas fundo sob as unhas do leitor. Com carinho, sempre com carinho. Mas sempre fundo.
Gente sensata? Gente insensata? Gente ácida? Gente áspera? Sempre à espera de aspargos? Quem são eles afinal? Foram batizados, fotografados, etiquetados? Comem carne, tomam banho, sonham de olhos bem abertos? Quando transam usam camisinha, vêem Deus, gemem oh yes?
Se você telefonar, eles certamente atenderão pelo nome de Bebel ou de Filipe ou de Giselle ou de Maurício ou de Raoni. Mas eu sei e você também sabe que o nome não define o homem. Não na literatura.
Na literatura são as idiossincrasias e as constelações poéticas, de natureza subjetiva, que definem o sujeito. São as suas digitais em prosa ou em verso. São o retrato e a estrutura genética de seu discurso ficcional ou lírico.
Não importa o que vai na carteira de identidade. Eles são esta revista. Não importa sua aparência física, não importa sua biografia. Eles são esta revista.
Não importa.
O fundamental é que eles, muito atrevidos, providenciaram papel e tinta e incitaram a revolta das palavras. Acordaram a sensibilidade poética. Cometeram diversos atentados contra a moral e os bons costumes.
E continuam livres.
Nelson de Oliveira